Sam Quinones em entrevista a Elena de Sus, no CTXT | Tradução: Gabriela Leite

No ano de 2021, a marca de 100 mil mortes por overdose foi ultrapassada nos Estados Unidos. Foram 30 mil a mais do que em 2019, e mais que o dobro de 2015. 70% delas estavam relacionadas a opioides sintéticos, especialmente a fentanila.

O youtuber [espanhol que visita bairros perigosos e fala sobre criminalidade] Zazza el Italiano publicou há alguns dias um vídeo que mostrava os estragos do vício em fentanila em Kensington, um bairro da Filadélfia, cidade norte-americana. Com quase dez milhões de visualizações, bem acima do habitual em seu canal, ele vem causando grande repercussão nas redes sociais.

Sam Quinones (Claremont, Califórnia, 1958) é um jornalista estadunidense que passou mais de uma década investigando a crise de opioides que seu país sofre desde os anos 1990. No livro Dreamland [2015, sem edição no Brasil] ele contou como a indústria farmacêutica promoveu agressivamente uma série de opioides para tratar a dor que foram prescritos massivamente e criaram milhares de adictos, enquanto os traficantes mexicanos melhoravam a produção e distribuição de heroína. Assim começou uma crise que se agravou recentemente devido à introdução do fentanila, um poderoso opioide sintético. A ela se soma um novo tipo de metanfetamina que está sendo produzido em “quantidades nunca antes vistas”, especialmente no México, conforme seu outro livro The Least of Us [2021, sem edição no Brasil].

Fique com a entrevista.

Tudo começou no sistema de saúde, a partir da prescrição massiva de opioides, principalmente um chamado Oxycontin, se não me engano.

Sim, esse é o tema do meu primeiro livro, Dreamland . Começou em meados da década de 1990. Havia muita pressão de especialistas em dor, em conjunto com empresas farmacêuticas, para que se expandisse o uso de opioides. Havia alguma evidência científica de que essas drogas não causavam dependência em pessoas que sofrem de dor– o que agora sabemos ser verdade em alguns casos, mas não em muitos outros. Desta forma, os comprimidos foram distribuídos por quase todo o país.

Por que isso foi feito? Em nome dos lucros?

Foi muito lucrativo para as empresas. E permitiu que médicos que tratam da dor física cumprissem sua missão de uma forma que não seria possível sem essas ferramentas, segundo eles. Satisfazia algo emocional em seu interior. Obviamente, os fabricantes dessas pílulas apoiaram muito a ampliação desse novo método de tratamento. Vale dizer que não estamos tratando bem a dor. É algo muito difícil, muito individual, é ciência e arte ao mesmo tempo.

Quer dizer, os especialistas viram que havia uma nova maneira de aliviar a dor e se sentiram bem com isso.

Sim. Não era exatamente uma novidade, obviamente. O ópio é conhecido há mais de 5 mil anos, mas era uma nova forma de usá-lo. Para muitas pessoas teve um benefício muito importante, isso deve ser frisado. Mas muitas outras inadvertidamente, sem saber, caíram no vício em opioides. Isso criou uma população enorme de norte-americanos viciados nessa droga, a maior que conhecemos.

Os traficantes no México se deram conta dessa situação muito cedo e começaram a procurar maneiras de fornecer mais e mais heroína – que também é um opioide. No decorrer desse processo, perceberam que havia uma droga sintética que poderia substituí-la: a fentanila.

A fentanila é muito boa quando usada em um hospital. Na cirurgia, foi revolucionária, permitiu operações que antes não eram feitas. Quando a operação termina, você acorda rapidamente, ao contrário da morfina, que pode levar várias horas. Fiz uma cirurgia cardíaca em 2017 e três minutos depois de encerrada, eu já estava conversando com os médicos como estou falando com você.

É uma droga muito poderosa, e essa é uma das vantagens para os cirurgiões. Mas nas mãos das máfias, torna-se um pesadelo. É o que estamos vivendo nos últimos cinco anos, nos Estados Unidos: recordes de overdoses fatais.

Ela se espalhou por todo o país, assim como a metanfetamina. São duas drogas opostas: a fentanila é depressora, a metanfetamina é estimulante. Ambas estão sendo produzidas em quantidades nunca antes vistas.

São drogas que podem ser produzidas muito rapidamente, que não dependem de nenhuma planta, nem do sol, nem da água, nem das plantações. Eles contam apenas com o controle portuário para trazer os ingredientes da China. E no México, os traficantes têm em parte esse controle.

Cada uma delas tem seu problema. O problema com a fentanila é a morte súbita. Ninguém sobrevive dois anos na rua tomando fentanila. Quanto à metanfetamina, o problema não é a morte em si, mas sim a doença mental que ela causa.

E elas são vendidas a um preço baixo, certo?

Sim, obviamente é possível vender barato se você ganha muito. A fentanila é recente. Mas temos uma longa história com a metanfetamina. Um investigador de narcóticos me disse recentemente que há 10 anos se pagava cerca de 16 mil dólares por libra, enquanto agora eles são cerca de 1,2 mil dólares por libra – ou seja, o preço caiu mais de 90%.

Em seus artigos, você explica que essa abundância de metanfetamina está relacionada a uma mudança na forma como é produzida.

O principal ingrediente usado hoje, o P2P, é super fácil de ser produzido com diferentes combinações de produtos químicos. Se o governo controlar alguns compostos, outros podem ser utilizados. Existem cerca de 30 maneiras de fazer metanfetamina com diferentes componentes. E todos esses produtos são legais, usados por diferentes indústrias e fáceis de adquirir no mercado mundial, principalmente na China.

O livro conta que a nova metanfetamina tem efeitos que não tinha antes.

Um investigador de narcóticos estava me dizendo que não se encontra mais metanfetamina hoje que não seja pelo menos 99% pura. Quando ele começou a trabalhar, há 25 anos, a pureza da metanfetamina era de 35%. Agora não. E os vendedores ambulantes também não têm incentivo para diminuí-la. É a metanfetamina mais potente que um cérebro humano já consumiu. É possível que esquizofrenia, lesões e psicoses estejam relacionadas a isso.

Com a fentanila acontece a mesma coisa, é fácil de produzir?

Sim, quimicamente, fazer fentanila a partir do 4-ANPP é muito simples. E existem outros produtos que podem ser transformados em 4-ANPP para depois realizar esse processo. Não é difícil para produtores que acumulam muita experiência e muito conhecimento. Lá em Sinaloa, em Jalisco [estados mexicanos onde estão instalados cartéis poderosos de venda de drogas], há algo parecido com um Vale do Silício das drogas sintéticas.

Estamos falando de um grande aumento na oferta de remédios, mas como surgiu tanta demanda?

Insisto que a oferta criou a demanda. Agora está em todos os lugares, são feitas em pílulas que se parecem com um Frontal ou Adderall [remédio similar à Ritalina], mas na verdade são nada mais que fentanila. Uma vez que você começa a consumi-lo, sabendo ou não, acaba se viciando na droga mais potente que o homem já criou, sem dúvidas.

Eu falava há pouco que, com a fentanila, você anestesia e acorda muito rápido. Quando alguém usa essa droga na rua, acontece a mesma coisa. Você fica em paz apenas por um momento. As pessoas em situação frágil começam com um comprimido por dia. Em duas semanas, já são cinco. Em três meses, são 30 ou 40. É sabido que assim que alguém começa a usar a fentanila, em três meses se tornará o melhor cliente do traficante – até morrer.

É preciso dizer que esse também é o modelo de negócios da farmacêutica Purdue Pharma. Eles colocaram no mercado comprimidos de Oxycontin de cinco e dez miligramas para convencer os médicos que estavam um pouco relutantes em dá-los a seus pacientes. Os representantes da empresa insistiam: “são apenas cinco miligramas, que mal pode fazer?” Mas sabiam que era viciante, e que aqueles cinco miligramas seriam 40 em um ano. Sabiam que, se pressionassem os médicos a prescrever Oxycontin a seus pacientes, o negócio cresceria cada vez mais com o tempo.

Esta empresa está atualmente acumulando ações judiciais.

Sim, eles estão dispostos a pagar bilhões de dólares para que não haja processos contra eles.

A família que era dona da Purdue Pharma, os Sackler, eram conhecidos por fazer caridade e filantropia, mas depois do que causaram com esta droga, caíram em desgraça. Seu sobrenome foi apagado de museus, universidades, faculdades de medicina… Muitos não moram mais nos Estados Unidos, foram para Londres e outras partes do mundo.

Os médicos hoje estão mais conscientes dos riscos dos opioides?

Eu diria que sim, talvez até demais. Opioides são úteis em certos casos, após a cirurgia, para pessoas que estão morrendo ou para controlar a dor de doenças como a artrite. Mas não deveriam estar nas casas de todas as famílias estadunidenses. Nos anos 1990 e 2000, íamos por esse caminho. É preciso encontrar um meio termo. O médico deve conhecer o paciente, sua história, sua família e assim por diante. Muitas vezes, eles não sabiam nada sobre as pessoas para quem estavam receitando todos aqueles comprimidos.

Isso acabou, mas agora temos fentanila. No meu último livro, conto como, em 2005 ou 2006, parte do cartel de Sinaloa descobriu que poderia produzir fentanila semanalmente ou quinzenalmente, que não precisava plantar papoula, nem contratar diaristas, nem depender do clima. Só precisavam obter os ingredientes da grande indústria química.

Também existem problemas de dependência dessas substâncias no México?

Sim! O governo nega. No México, os médicos legistas não costumam fazer exames de sangue nos mortos. Mas, segundo o Los Angeles Times, em Mexicali, cidade de um milhão de habitantes perto da fronteira com os Estados Unidos, decidiram fazê-los e observaram que 23% testaram positivo para fentanila. Não há uma maneira fácil de descobrir, mas com as quantias que os carteis ganham…

No México, não havia problemas com a cocaína até que os colombianos começaram a importar toneladas dela através da fronteira na década de 1980. Seguindo a mesma lógica, acredito que pela quantidade de fentanila que é fabricada, com centenas de fabricantes, deve haver um problema de dependência também no México.

Mas se você não testar ou coletar dados, como poderá fazer qualquer reclamação? AMLO [Andres Manuel López Obrador, presidente do México] diz que não tem nada disso, que é um problema dos gringos. Não, o problema é binacional, os efeitos são binacionais, e as soluções também terão que ser binacionais.

Falamos sobre fentanila, por um lado, e metanfetamina, por outro. Uma é depressora e outra estimulante do sistema nervoso. Qual é a relação entre as duas drogas? Eles são consumidos pelas mesmas pessoas ou por pessoas diferentes?

Sou repórter há 36 anos, passei cerca de dez anos no México. Antes, por muitos anos, havia dois mundos: o mundo da heroína e o mundo dos estimulantes, como a metanfetamina. Nos Estados Unidos, eram mundos muito distintos. Na verdade, havia desprezo um pelo outro.

O que vimos nos últimos cinco ou oito anos é que esses dois mundos, que antes eram tão distantes, agora se fundiram completamente. As duas drogas são produzidas pelas mesmas pessoas, passadas pela fronteira pelas mesmas pessoas, vendidas pelas mesmas pessoas – e é normal encontrar ambas no exame de sangue de uma pessoa falecida.

Essa crise está afetando toda a população ou teve um impacto maior em algumas comunidades?

É um problema nacional, não é exclusividade da população urbana, rural ou coisa parecida. Veremos como termina. A verdade é que não faço ideia.

As administrações públicas estão adotando alguma política nesse sentido?

Bem… Estamos saindo da pandemia. Ela absorveu todos os recursos, todo o orçamento. Agora estamos percebendo que, enquanto a pandemia fazia seu trabalho, a metanfetamina e a fentanila também faziam o deles. Estamos em um momento de confusão nacional. Mal estamos percebendo o problema que enfrentamos.

Você é da opinião que a abundância e os efeitos dessas drogas adicionaram uma nova dimensão ao problema dos sem-teto, que as autoridades locais nem sempre levam em consideração ou compreendem.

O problema dos sem-teto é hipercomplicado e tem muitas causas. A crise imobiliária é uma delas, é claro. A toxicodependência é claramente outra. Eu também diria que quando alguém vai para a rua, por qualquer motivo, as drogas estão lá para garantir que não saia. É muito fácil começar a usá-las se você está nessa situação, devido à quantidade de drogas que recebemos do México – um problema que enfrentamos como nação. E uma vez que você começa a usar essas drogas, é difícil sair da situação antes de morrer ou cair em um distúrbio mental que causa uma irracionalidade flagrante.

Isso é facilmente constatado quando você conversa com profissionais que trabalham nas emergências de hospitais, com pessoas que ficaram desabrigadas, com voluntários que vêm para os acampamentos [em algumas cidades dos Estados Unidos foram montadas grandes tendas para grupos de pessoas sem-teto], em ruas ou parques. Há um discurso que diz que o único problema é a falta de moradia, e a solução é dar acesso à moradia, nada mais. Essa forma de lidar com este grave problema não é correta, na minha opinião.

Site OutraSaúde – Foto: Gabrielle Lurie/The Chronicle