Olimpíada acentua desequilíbrios

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Os Jogos Olímpicos começarão no dia 5 de agosto, na cidade do Rio de Janeiro, como um alívio para os taxistas locais, não pelos ganhos adicionais que poderão obter com turistas, mas pelo fim das obras que bloquearam muitas avenidas nos dois últimos anos. Porém, dezenas de milhares de famílias se sentem excluídas do festival esportivo e da cidade. São as vítimas de deslocamentos forçados pela construção de vias de transporte e instalações para a Olimpíada.

“Mais de 77 mil pessoas perderam suas casas desde 2009”, quando o Rio de Janeiro foi escolhida sede dos Jogos Olímpicos 2016, denunciou Mario Campagnani, membro do Comitê Popular da Copa e da Olimpíada, como representante da organização não governamental Justiça Global. Nem todas essas pessoas foram deslocadas, mas muitas comunidades pobres, como Vila Harmonia e Recreio II, foram totalmente desalojadas, em razão do que “chamamos de jogos da exclusão”, explicou à IPS.

Este será o quarto grande evento esportivo que afeta a cidade desde os Jogos Pan-Americanos de 2007. Depois vieram a Copa das Confederações em 2013 e o Mundial da Fifa no ano seguinte, esta disputada em várias cidades mas com encerramento no Rio de Janeiro, a sede principal. A maioria das famílias foi reassentada em bairros distantes do centro e de locais de trabalho, com infraestrutura precária; outras receberam indenizações insuficientes para refazerem suas vidas e alguns não receberam qualquer compensação por suas casas ou comércios demolidos, segundo o Comitê.

Quatro linhas de BRT (TransporteRápido por Ônibus) somando mais de 150 quilômetros, uma linha de metrô de 16 quilômetros, uma reforma radical da zona portuária central, agora denominada Porto Maravilha, e alguns estádios foram as principais obras impulsionadas pela Olimpíada. O BRT Transcarioca, que une a Barra da Tijuca, o novo bairro rico onde foi construído o Parque Olímpico e outros estádios, ao aeroporto internacional do Rio de Janeiro, reflete o objetivo de servir ao turismo primeiro, antes da população local.

A cidade se adequa a essa atividade, “por ser uma grande metrópole, de paisagem natural maravilhosa e um centro cultural atraente, onde até a pobreza das favelas se converteu em produção interessante”, destacou o professor, que coordena o Observatório de Metrópoles, uma rede de pesquisa. Além disso, essa inclinação por grandes espetáculos e seus negócios tem um desenvolvimento endógeno.O Rio Janeiro se converteu em uma das capitais mundiais dos megaeventos, que são “uma máquina de entretenimento, uma indústria múltipla que gerou um novo conceito de lazer turístico, ativo e não mais contemplativo”, afirmou à IPS Luiz Cesar Ribeiro, professor de planejamento urbano na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Trata-se de um setor complexo, que envolve em sua preparação e realização vários serviços, obras públicas, meios de comunicação e outros negócios, como a indústria de material esportivo, além da Fifa e do Comitê Olímpico Internacional”, acrescentou.

O carnaval local se converteu em um negócio turístico e televisivo internacional. Em 1950, o Rio foi o coração da Copa do Mundo de Futebol, construindo o Maracanã, maior estádio do mundo durante muitas décadas. Em 1985, o empresário Roberto Medina criou o Rock in Rio, reunindo multidões, bandas e cantores internacionais. Mas os megaeventos custam muito e exigem grandes investimentos em detrimento de serviços públicos, como saúde e educação.

“Somente cidades ricas e sem problemas deveriam recebê-los”, opinou Ribeiro. “Mas não é assim, porque a indústria do entretenimento prefere cidades como o Rio de Janeiro, com mecanismos de corrupção que facilitam seus negócios, o que inclui as da Rússia e África do Sul, ou mesmo países ou cidades-empresas como o Catar”, acrescentou, ressaltando que se trata de uma atividade cujos preços não são fixados pelo mercado, mas por acordos, sem parâmetros.

O Brasil é um pouco o inventor do novo conceito, já que foi um brasileiro, João Havelange, como presidente da Fifa entre 1974 e 1998, que “se deu conta do grande negócio que o futebol poderia representar ao ser globalizado” e envolvendo diferentes setores, desde a venda do espetáculo, até a indústria e o comércio de jogadores.

Agora, Ribeiro se preocupa principalmente com o que virá depois dos Jogos Olímpicos. “Teremos uma fragilidade econômica acentuada, uma volta aos anos 1980, com crise social, desemprego e mais violência”, previu. Isso porque o Rio não conta com uma base industrial estruturada e é mais vulnerável do que outras cidades à crise econômica nacional. Acabarão os empregos gerados pelo megaevento, em um momento em que o Estado do Rio de Janeiro está quebrado e em crise de governabilidade.

O plano olímpico também agrava os desequilíbrios do Rio, ao concentrar os investimentos na Barra da Tijuca, uma equivocada expansão urbana para o oeste, iniciada nos anos 1970, com “elevados investimentos em túneis, estradas e viadutos, em um circuito especulativo de altos custos sociais” para a cidade, destacou Ribeiro. Assim, segundo o professor, se perdeu a oportunidade da Olimpíada para “criar outras centralidades a fim de equilibrar a cidade”, revitalizar o centro e “sair do modelo que amplia investimentos em áreas ricas, ao contrário do que fez Londres” para os Jogos de 2012.Além disso, o momento anterior, de relativa melhora econômica e social, gerou expectativas que serão frustradas depois dos Jogos, com a população perdendo renda e sofrendo a deterioração de serviços de saúde, ressaltou Ribeiro. O grande avanço nos transportes coletivos urbanos, anunciado como legado da Olimpíada, não ocorrerá, porque se investiu muito nos BRT, de efeitos limitados aos seus circuitos, sem uma política geral de transporte de massa, o que exigiria melhorias nos trens suburbanos,“nos quais não houve nenhum investimento”, lamentou.

Por outro lado, a violência na cidade está aumentando, segundo Campagnani. As mortes provocadas pela Polícia Militar local chegaram a 40 em maio, 138% mais do que em igual mês de 2015, e a maioria das vítimas é de jovens negros. A sucessão de megaeventos fomenta uma crescente militarização da cidade, com o exército convocado para manter a segurança pública. Durante os Jogos, que acontecerão de 4 a 21 de agosto, atuarão 21 mil militares no Rio e mais 20 mil em outras cidades onde também haverá competições, como os jogos de futebol.

Os cerca de 10.500 atletas e 25 mil jornalistas, além de um número maior de turistas, chegarão ao Rio em um momento desfavorável. Além da crise econômica e política, o Brasil sofre, desde o ano passado, um foco do vírus Zika, transmitido pelo Aedes aegypti e fator de microcefalia em bebês de mães contagiadas.

O ministro dos Esportes, Leonardo Picciani, no cargo há apenas dois meses, descartou riscos, em uma teleconferência com jornalistas estrangeiros no dia 7 de julho. Os casos de zika já caíram 90% no Rio, passando para 700 em maio e deverão “se aproximar de zero em agosto”, assegurou o ministro.Sobre segurança, recordou que a cidade tem longa experiência com o Mundial de Futebol e outros megaeventos, a visita do papa Francisco em 2013, sem incidentes, e afirmou que haverá um número sem precedentes de policiais e militares. Envolverde/IPS